A Agência do/a Terapeuta na Prática Clínica em tempos da Inteligência Artificial

Num mundo cada vez mais digital, qual é o lugar do/a terapeuta?

Vivemos uma época marcada por profundas transformações tecnológicas. A Inteligência Artificial (IA) está a revolucionar diferentes áreas da sociedade e começa também a ocupar um lugar crescente na saúde mental, através de plataformas digitais, aplicações de bem-estar, chatbots e ferramentas de apoio à prática clínica.

Uma ideia revolucionária de Carl Rogers que continua atual

Há mais de seis décadas, Carl Rogers, um dos fundadores da Psicologia Humanista e da Abordagem Centrada na Pessoa, revolucionou a compreensão da Psicoterapia ao propor uma ideia aparentemente simples, mas profundamente transformadora, de que é na relação que se constitui a mudança.

No seu artigo intitulado The Necessary and Sufficient Conditions of Therapeutic Personality Change (1957), Rogers defendia que determinadas atitudes do/a terapeuta criavam as condições necessárias para o crescimento psicológico e para a mudança. Entre essas atitudes destacava: a Empatia como a capacidade de compreender profundamente o mundo interno da pessoa; a Aceitação Incondicional da pessoa na sua singularidade, sem julgamentos ou condições; a Autenticidade como a presença genuína do/a terapeuta na relação, favorecendo um encontro humano assente na confiança e segurança. Para Rogers, estas não eram meras técnicas, mas sim uma forma de estar com o outro.

Um novo paradigma: prática clínica aumentada

Os avanços tecnológicos oferecem oportunidades importantes, nomeadamente com a Inteligência Artificial que poderá contribuir em diferentes aspetos, como facilitar o acesso à informação, apoiar a sistematização de dados clínicos, ou auxiliar a tomada de decisão baseada na evidência, libertando tempo para o trabalho clínico.

Contudo, permanece uma questão fundamental:

Pode uma tecnologia substituir a experiência de ser verdadeiramente compreendido por outro ser humano?

Embora os sistemas de IA sejam capazes de reconhecer padrões e gerar respostas sofisticadas, continuam a existir dimensões essencialmente humanas que permanecem no centro da Psicoterapia: a construção da confiança; a presença emocional; a capacidade de atribuir significado ao sofrimento; a sensibilidade ao contexto e à singularidade da pessoa; a responsabilidade ética e clínica.

A presença humana continua a ser insubstituível

Também a Ordem dos Psicólogos Portugueses tem vindo a sublinhar a importância de uma utilização ética, responsável e cientificamente fundamentada da Inteligência Artificial, defendendo que estas tecnologias devem constituir instrumentos complementares e não substitutos da intervenção psicológica (OPP, 2025).

Paradoxalmente, numa era caracterizada pela crescente digitalização das relações, a necessidade de experiências humanas seguras, autênticas e significativas torna-se ainda mais evidente. Talvez seja precisamente neste contexto que as palavras de Carl Rogers (2023, p. 55) adquirem uma renovada atualidade:

«Se eu puder proporcionar um determinado tipo de relação, a outra pessoa descobrirá dentro de si a capacidade de usar essa relação para o seu crescimento, e a mudança e o desenvolvimento pessoal ocorrerão.»

Riscos emergentes na prática clínica

A OPP alerta para vários riscos associados ao uso indiscriminado da IA:

  • Falta de validação científica de ferramentas

  • Respostas potencialmente inadequadas ou perigosas

  • Uso crescente de chatbots como substitutos de apoio psicológico

  • Problemas de confidencialidade e proteção de dados

  • Possível reforço de crenças disfuncionais ou desinformação

Uma mensagem final

As tecnologias evoluem e a IA pode ser uma aliada poderosa. Os modelos terapêuticos transformam-se. As ferramentas tornam-se mais sofisticadas. Mas é o/a psicólogo/a que continua a ser o responsável pela intervenção, pela relação e pelo cuidado, sendo que algo permanece inalterado:

A mudança psicológica acontece, muitas vezes, quando uma pessoa encontra um espaço onde pode ser vista, escutada e compreendida com empatia, autenticidade e respeito. Porque, mesmo na era da Inteligência Artificial, a relação terapêutica continua a ser uma das mais poderosas expressões do cuidado humano.

Referências

Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2025). Uso da Inteligência Artificial (IA) em Psicologia e no Recurso à Psicoterapia [Tomada de posição]. https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/uso_da_ia_em_psicologia_e_no_recurso_aa_psicoterapia.pdf

Rogers, C. R. (1957). The necessary and sufficient conditions of therapeutic personality change. Journal of Consulting Psychology, 21(2), 95–103.

Rogers, C. R. (2023). Tornar-se pessoa: A terapia pelos olhos do terapeuta. Talento Intemporal. (Obra original publicada em 1961).

Imagem associada a este artigo: DeepAI Image Generator 2026 ( Therapeutic Bond in AI Era).

 
Alexandra Mendes Guerra | website design

I have been working in website design and development since 1996, and in visual design since 2008. I hold a Bachelor's degree in Computer Engineering and a specialization in Design and Multimedia. Since 2020, I have been a member of the Squarespace Circle, collaborating with partners specializing in Copywriting, SEO, Programming, and more.

I have supported various organizations worldwide, notably through the United Nations online volunteering program, as well as volunteering for organizations in my own country, developing websites and graphic materials.

I am passionate about simple design approaches, usability, and typography. I believe in the power of design and photography to enhance communication, shift perceptions, and evoke emotions.

I’m open to collaborative and joint projects with other professionals and small studios.

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